segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Educação e ética

A ética na educação escolar envolve a interação entre a coletividade escolar, todos os envolvidos no processo educacional, ou seja, entre os alunos e os professores, alunos e alunos, professores e seus colegas e, entre todos esses e os demais integrantes da equipe escolar, sejam no meio administrativo ou executivo.

O primeiro ambiente de socialização que a criança experimenta é com a família, enquanto que, na escola, ela faz a transição para a vida em sociedade no sentido mais amplo. O primeiro grande conflito de socialização que se estabelece na escola é a dualidade ‘liberdade’ x ‘autoridade’. Essa dinâmica reflete um grande desafio para qualquer um que precisar trabalhar a ética em sala de aula, pois a ética só faz sentido se trabalhada através de exemplos. É pouco válido trabalhar a ética em termos abstratos e/ou teóricos.

No mundo antigo a ética confundia-se com virtude, sendo vista, no mínimo, como se fossem campos complementares. E o lugar preferencial para sua prática era a política, de onde se compreende que, por ética, entendia-se a busca pelo bem comum, pela “concórdia”. Ética e Moral refletiam nesse momento histórico a mesma significação, ou seja, os costumes e ações aceitas socialmente.

Atualmente entende-se a ética como sendo a adesão voluntária a determinadas regras sociais, enquanto que a moral é determinada pelo coletivo a qual se deve obediência. Em ambos os casos estaríamos falando da necessidade de nos colocar no lugar do outro e, o outro é sempre diferente.

A ética é sempre construída a partir do hábito, daquilo que é habitual e constante, e é no exercício diário que se faz as escolhas por comportamentos éticos ou não, em consonância ou não com aquilo que é socialmente aceito. É fundamental percebermos que estamos lidando com uma dimensão do saber que só é perceptível na ação.

Aristóteles, na obra Ética a Nicômaco, afirma que “A excelência moral, portanto, é algo como a eqüidistância, pois, como já vimos, seu alvo é o meio termo”. E, para exemplificar, nos mostra situações em que o medo nos aproxima da covardia e, a ausência dele, da imprudência, pois sentir medo em relação a certas situações e de maneira apropriada é o melhor a se fazer, sendo, portanto, eticamente aceitável e até esperado.

Só é possível pensarmos em uma educação para a democracia, se tivermos em mente que é somos todos diferentes, mas temos a igualdade como condição e, portanto, o dever de zelar pelo direito do outro de ser diferente de mim.

Em Richard Sennett, 1988, p 323-4 , encontramos uma boa definição da relação entre cidade e civilidade, sendo aquela o lugar preferencial para o exercício desta, ou seja, “A cidade é o estabelecimento humano no qual os estranhos devem provavelmente se encontrar. A geografia pública de uma cidade é a institucionalização da civilidade”. Civilidade é, segundo o autor, a ação de forjar laços sociais com estranhos, a despeito dessa distância social, e das diferenças.

Para a criança, o educador é como que um representante de todos os adultos do mundo. É o modelo ideal de ‘cidadão’ em quem a criança se inspira para formar seus valores. A partir dessa constatação pode-se fazer referência a afirmação de Kant, na Fundamentação da metafísica dos costumes, em que ele afirma: “Age de tal maneira a tratar a humanidade, tanto em tua pessoa como na de todos os outros, sempre ao mesmo tempo como um fim, e nunca como um meio.” Também nos diz: “Age de tal modo que a máxima de tua ação possa transformar-se em lei de validade universal”.

Segundo o autor, se devemos agir após respondermos se nossa ação é passível de ser transformada em algo que possa ser feita por todos os demais. Às vezes avaliamos uma atitude pelo que ela nos trás de benefícios ou não, e nos esquecemos que, em muitos casos, deveríamos nos preocupar com a validade coletiva dessa mesma ação.

O pensamente ético deve estar pautado nas perguntas: Como e por que a ação é moralmente correta? Que critérios deve orientar o julgamento? O que devo fazer? E essa ação deve visar a felicidade de todos, a concórdia. Deve se tratar sempre de ações justas aos olhos da coletividade.

O professor jamais conseguirá trabalhar a ética com uma turma se não houver um acordo ou um ‘contrato’ pedagógico, em que cada grupo sinta-se participando da elaboração de seu currículo. E nesse contrato que reside a razoabilidade que deverá nortear as relações entre todos daquele meio social.

A escola como nós a conhecemos foi instituída não apenas para ensinar a ler e escrever, mas também veio para ensinar patamares de comportamento e, portanto, é sempre bom lembrarmos que há um currículo oculto em que se requer o trabalho de ensino da ética. Não podemos engessar os alunos e professores com um conjunto de regras em que eles não tenham contribuído para sua elaboração. Atualmente, a autoridade do professor se legitima não mais pela obediência do aluno, mas sim, pela adesão voluntária do aluno às propostas do professor.
É muito comum o professor ter atitudes de “intolerância”* para com determinados alunos, em virtude de própria dificuldade em lidar com as diferenças. Determinados alunos desencadeiam atitudes preconceituosas por parte do professor e, geralmente, esse professor não se questiona sobre as próprias dificuldades, jogando o foco de suas preocupações com o aluno e tudo aquilo que o faz diferente dos demais.


* O termo intolerância, está entre aspas por eu, Monahyr Campos, ser cauteloso quanto ao seu uso nesse contexto. Segundo o dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, Tolerância, sf, significa “ato ou efeito de tolerar; indulgência, condescendência”.

Saúde do professor

A saúde do professor deve ser motivo de preocupação na escola e muitas são as causas de doenças ligadas à prática docente. Excesso de trabalho, indisciplina dos alunos, salário baixo, pressão da direção, violência, demanda dos pais de alunos, bombardeio informações, desgaste físico, perda da voz, problemas posturais, falta de reconhecimento na profissão são algumas das causas de estresse, ansiedade e depressão, no profissional de educação.

Para cuidar da voz, material de trabalho do professor, que se torna um problema principalmente pela necessidade que ele tem de tentar falar mais alto do que os alunos e durante  várias horas por dia, deve-se atentar para a hidratação, a articulação, o posicionamento, a variação melódica e a respiração. O problema é que a maioria dos professores não foi preparada para utilizar profissionalmente a voz. E só procuram profissionais quando já estão doentes.


Os problemas posturais do professor têm como causas: posturas viciosas, sedentarismo, hérnia de disco, sobrepeso, LER (recentemente conhecidas como DORT) etc. A principal  maneira de evitar problemas é fazendo alongamento, tendo o cuidado postural durante o exercício docente e a prática de exercícios físicos.

Outro grande problema de saúde enfrentado pelo professor é o estresse, que é conhecido como uma reação do organismo à estímulos constantes, que causam medo, confusão ou euforia causando respostas de caráter físico e biológico. As fases do estresse são: a fase de alerta, de resistência, e de exaustão. Na fase de alerta, é comum o organismo desencadear reações que, por vezes, amenizam os sintomas ou até mesmo, resolvem o problema. Na fase de resistência o corpo se debate com os estímulos que causam o estresse e, se os motivos perduram, chega-se à fase de exaustão, quando o organismo do profissional para de reagir e perde as forças com que lutava contra esse bombardeio de estímulos. É quando a pessoa fica suscetível a uma série de doenças.


A síndrome de Burnout é muito marcante como conseqüência do estresse, caracterizando-se por uma exaustão profissional, uma avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade exagerada. As causas do estresse profissional são, principalmente, a sobrecarga quantitativa de atividades acumuladas, a falta de tempo, a falta de recursos para o exercício da função e um sistema educacional deficitário. Vale lembrar que todos passam por esses estímulos, mas nem todos desenvolvem estresse por que o resultado depende de como se responde ao estímulo.

Para prevenir ou melhorar um quadro de estresse o professor pode buscar o auxílio dos colegas, a interlocução com pares, deve aprender a esperar um momento melhor e aprender a ver o que pode ser feito em determinada situação e não focalizar no que não pode ser feito. O profissional deve ainda procurar não desenvolver dependência de alguém, deve procurar ser flexível, além de fazer exercícios físicos, manter bom sono, boa alimentação, reservar tempo para si mesmo.

É importante, também, procurar ainda criar um bom ambiente de trabalho recebendo apoio da direção, mantendo-se em formação constante, procurando hora para o lazer, manter a saúde física e emocional bem cuidada, buscar o apoio dos colegas, manter boas condição de trabalho e conhecer o projeto político pedagógico da escola, buscando, com isso, ser prestigiado.

Violência escolar


A violência é a terceira causa de morte no país, antecedida por doenças cardiovasculares, em primeiro lugar, e por problemas coronarianos, em segundo. Quando são consideradas as faixas etárias a violência é a principal causa de morte entre os jovens de 1 a 39 anos de idade. Esse assunto pode e deve ser discutido na escola. Entre os mais velhos, o risco de acidente cardiovascular é a maior causa de morte.

Os professores também devem se preocupar com a avaliação de crescimento das crianças e adolescentes, crescimento este que é afetado por causas externas, tendo como fator principal a alimentação. Excesso de comida e distúrbios alimentares como anorexia e bulimia são causas de problemas de crescimento.



Muitos alunos são diagnosticados com TDAH, e cabe ao professor conhecer e colaborar com os alunos e a família no processo de descoberta e contorno desse distúrbio, no sentido de orientar as famílias para lidar com um esse diagnóstico.

Um tema bastante recorrente é a afetividade infanto-juvenil, expressa também pelo início da vida sexual. É um tema muito discutido pela comunidade escolar por conta também das ocorrências de gravidez na adolescência, que tem se tornado muito comum na sociedade brasileira. Os adolescentes criaram novas formas de lidar com a sexualidade, e cabe aos professores conhecê-las, para orientá-los no desenvolvimento da autonomia nas relações afetivo-sexuais.

Outra discussão comum no ambiente escolar é a violência, tanto entre os alunos, através do bullying, quanto na relação entre estes e os professores. A violência escolar tem se tornado inclusive mortal, com notícias de armas nas escolas, e ao mesmo tempo, virtual, com o bullying na internet.

Uma questão correlacionada é o efeito das drogas na violência e no trabalho nas escolas. O comportamento dos jovens e o prejuízo acadêmico muitas vezes são decorrências imediatas do uso dessas substâncias.

A sociedade brasileira tem influenciado os alunos em outro aspecto comportamental: a sociedade da informação tem modificado as relações, e a mídia, com a força da propaganda, atinge a família através da criança.

De maneira semelhante, a atual sociedade da informação tem exigido altos níveis de excelência das crianças, exigência que vem deixando crianças com doenças que antes eram consideradas de “adultos”, como o estresse e a depressão.

Não se deve esquecer que discutir saúde na escola significa discutir a saúde da comunidade escolar, entendendo-se que não se deve esquecer da saúde do professor, que se não for levada em conta, pode significar sérios riscos a seu rendimento e a carreira.


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A educação e a construção de valores

Como a escola pode atuar no processo de construção de juízo moral na criança, ainda segundo Piaget?

Para o professor Ulisses Araújo, existem sete dimensões que influem diretamente nesse processo. O primeiro deles é com relação ao currículo, pois, apesar de constar em todos os PPPs a pretensão de se formar os cidadãos, as escolas continuam a trabalhar temas como ética, direitos humanos e valores democráticos de forma fragmentada ou desarticulada da vivência dos alunos.

A segunda dimensão diz respeito à metodologia, pois, além de uma mudança do currículo, se faz necessário que se mude a forma como se trabalha em sala de aula. Não é sequer razoável que se trabalhe valores democráticos com os alunos e, ao mesmo tempo, se estabeleça uma relação unilateral no que diz respeito ao respeito ao respeito às regras, em que ele, o professor ensina e o aluno aprende. É necessário que se trabalhe de tal forma que haja uma construção coletiva do conhecimento.
É fundamental que as relações estejam pautadas no diálogo. Que as aulas sejam elaboradas levando-se em consideração a valorização do diálogo, ou seja, que haja uma igualdade nas relações.

A terceira dimensão diz respeito ao trabalho intencional da escola no desenvolvimento dos valores nos aluno. Que faça parte do currículo ou da organização curricular, para que se possa ensinar planejadamente e se possa avaliar o quanto o aluno assimilou dos valores que foram inseridos em seu cotidiano. O documento norteador para os trabalhos de desenvolvimento dos valores em sala de aula pode ser a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A quarta dimensão estaria voltada para as relações interpessoais e os sentimentos que a ela estão interligados e entre os vínculos que se desenvolvem entre o aluno e o professor e entre aluno e aluno. As relações de respeito, autoridade e admiração devem ser trabalhadas em sala de aula e isso deve ser feito de forma democrática, em que o respeito possa contribuir para que, da admiração surja uma relação dialógica de autoridade.

A quinta dimensão é a da autoestima. Segundo Harkot de-la-Taille, 1999, “Cada ser humano constrói para si  uma imagem que julga representá-lo, com a qual se identifica e se confunde”. Em nossa consciência temos essa autoimagem e a relação que estabelecemos com essa autoimagem. A discriminação abaixa a autoestima do aluno, seja ela por esse aluno ser mais lento, ser negro ou ter qualquer deficiência, e esse aluno dificilmente vai querer agir em prol do coletivo, uma vez que o coletivo é visto por ele como um opressor, um adversário.

A sexta dimensão é a do autoconhecimento, que é a tomada de consciência de si mesmo e dos sentimentos e emoções que nos constituem. Sem esse conhecimento, podemos confundir amor e ódio, deseja algo achando que tem raiva etc. Só podemos ter clareza de como alguém vai se sentir quando agirmos de uma determinada maneira se compreendermos o que nós sentimos quando alguém age assim conosco.

Um bom exercício para desenvolver o autoconhecimento é propor quer a criança pegue uma folha e a divida ao meio, desenhando de um lado uma pessoa triste e, do outro, como poderíamos ajudar a essa pessoa. Dessa forma exercitamos a compreensão das dores dos outros e de como gostaríamos que agissem conosco quando estivéssemos tristes e por assim adiante.

A sétima dimensão é a da gestão escolar pois uma instituição com o projeto político pedagógico é centralizado na construção e na implementação foge a qualquer princípio democrático e, dessa forma impede a constante atualização que a educação para valores requer.



O juízo moral na criança

Como se dá o processo de criação de valores na criança? Segundo Piaget, "Toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras". A partir desse pressuposto pode-se deduzir que uma pessoa 'moral' é aquela que respeita e cumpre as normas instituídas pela sociedade e, que a pessoa 'imoral' é justamente aquela que não respeita nem cumpre essas regras.

A palavra respeito surge aqui como algo que deve ser destacado, afinal, o que está em jogo não é o mero cumprimento às normas, mas sim a postura que se tem diante delas.
Piaget divide o aprendizado moral em três estados: A Anomia, a Heteronomia e, por fim, a Autonomia. O sulfixo 'nomia' deu origem à palavra norma.

Anomia: Ao nascer a criança não tem nenhuma noção de regras, de horários nem qualquer preocupação que esteja para além de suas vontades. Se sente dor ou fome, não há uma preocupação de que aquele momento ou local requer silêncio - ela chora; se tem necessidades fisiológicas - ela faz.

Heteronomia: Aos poucos a criança vai percebendo que existem regras, comportamentos questionados ou valorizados. Através de sucessivas interpolações por parte dos adultos, se dá conta de que há, no mundo externo a ela, 'guardiões' do comportamento. Se fizer algo, "mamãe não gosta" "deus castiga" etc.

Autonomia: A tendência é de que, com o passar do tempo, o sujeto internaliza esse conjunto de regras. Há já o juízo moral, mas ele não é externo - não se faz necessária uma cobrança externa. Ainda segundo o autor, a partir da internalização dessas regras, não estamos mais lidando com as possibilidades de uma retaliação, uma vez que a pessoas se propõe a, por ela mesma, respeitar tais regras.

É importante frisar que, nessa obra, Piaget não fala de etapas, fala de estados.

Essa descrição piagetiana vem acompanhada de uma proposição de formação de sujeitos morais pela sociedade em que, não mais se estabeleçam relações de coação - aquelas em que a pessoa não faz algo por medo de ser punido. Daí a escolha pelo termo respeito, e não obediência. Segundo essa teoria, deve-se buscar uma relação de afetividade, e não de medo.

A idéia é que haja uma busca pela cooperação, uma vez que o que se pretende em uma sociedade é o respeito mútuo, e não a obediência unilateral.

É possível estabelecermos um gráfico em que o estado de anomia equivale a um estado de egocentrismo, e que, à medida que forma-se o juízo moral diminui o grau de egocentrismo no sujeito.

O que torna essa teoria sobre a formação do juízo moral na criança diferente em relação às propostas behavioristas é justamente o direcionamento que a educação pode dar para a construção desse juízo moral, uma vez que, aqui, não é a repetição de comportamentos e estímulos/punições que, com o passar dos anos, determina o comportamento, mas a relação de troca de afetividades e as escolhas de cada um formando um juízo de valores dos sujeitos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Intervindo nas dificuldades de aprendizado através da música

Material didático composto para complementação pedagógica e palestras
Monahyr Campos - OMB 52143 - Músico, Compositor e Intérprete
Professor universitário c especialização em musicalização infantil;
Pós-graduado em Ética, Valores e Saúde na Escola;
Mestrado em Análise do Discurso e diversos cursos de extensão na 
área de neurociências, psicopedagogia e educação inclusiva.


           
        "A primeira e mais geral definição obtida sobre o significado desse conceito veio da constatação de que no mundo existem duas “coisas”: as naturais e as artificiais. As “coisas” naturais são aquelas cuja existência não depende de uma intervenção do homem, elas pré-existem ao homem, isto é, não foram criadas ou produzidas por ele. Às “coisas” artificiais ou às criaturas do homem dá-se o nome de cultura. (...) A educação é uma tarefa especificamente humana: só os homens educam seus semelhantes. Quem não entende a diferença entre o humano e o animal não está preparado para educar o homem e nem compreende a barbárie contemporânea. Confundir o homem com o animal tem conseqüências drásticas: uma delas é confundir educação com adestramento e a outra é eliminar da educação o seu caráter de emancipação, reduzindo-a apenas à adaptação." José Geraldo Pedrosa[1]

           
         Estudaremos a seguir, alguns temas pertinentes ao exercício pedagógico de inserção da música no cotidiano do educador.
            Cada educador é único e cada um viveu as mais diversas experiências em sua vida. As informações aqui explanadas, tem como grande objetivo, somar-se ao que cada um traz como bagagem intelectual, para, juntos, construirmos ambientes de trabalho mais prazerosos e produtivos.
            Lembrem-se: Ninguém substitui o educador. No entanto, o educador não é infalível e não é perfeito. Façamos de nossas imperfeições nosso material mais valioso. Creio que todos concordam que errar é humano, logo, tudo aquilo que nos mostra nossos defeitos, nos torna mais humanos. E é o que nos permite crescer e aprender.
            Bons estudos!
Ass. Monahyr Campos


1 - O papel do professor

"O ser humano que não conhece arte tem uma experiência de aprendizagem limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos à sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida" (PCN: arte/ MEC, página 21).

            Introdução:
            Às vezes, nossa dedicação e entrega ao ato de ensinar nos faz esquecer que a criança desenvolve muitas de suas habilidades simplesmente explorando o mundo à sua volta.
            O modo como conduzimos uma atividade qualquer pode levar a muitos resultados distintos. Ao identificar qualquer dificuldade em nossos alunos, tendemos a nos entregar de corpo e alma à tarefa de ajudá-los e, muitas vezes, interferimos nos processos deliberadamente, o que pode limitar os resultados.
           
            A criança aprende brincando:
            Há poucos anos, uns trinta, eu diria, era comum ouvir os pais afirmarem que brincar era perda de tempo. Na verdade, essa idéia ainda persiste em muitas pessoas. O ser humano existe há aproximadamente 200.000 anos. E o ensino, como nós conhecemos, há pouco mais de 4.000. Antes disso, as crianças aprendiam brincando entre si, imitando os adultos e criando seus brinquedos.

            Ver o mundo com olhos de criança:
            Para uma criança, tudo é novidade. Isso permite que ela explore as situações sem medo, sem bloqueios. Essa característica é fundamental no processo de aprendizado. Se o educador compreende essa especificidade e a insere em seu cotidiano, automaticamente seu trabalho se torna mais fluido e mais criativo. Isso atrai as crianças.

            Questões de método:
            Todos sabemos que não há fórmulas mágicas. O que o melhor dos especialistas pode fazer é dar sugestões. Eu sempre sugiro que haja um diálogo entre as partes. As crianças sempre têm muito a ensinar. E o melhor educador é sempre aquele que facilita o processo. Exercite sua habilidade de formular perguntas. E deixe seus anjinhos formularem as respostas.

            A criança entende?
            Essa é a grande pergunta que todo educador é estimulado a se fazer constantemente. Qual a idade ideal para se ensinar algo? Em termos de arte, acredito que a questão é mais simples: não devemos questionar se ela entendeu, questionemos como ela entendeu. Provavelmente nos surpreenderemos com as respostas. O grande desafio não é o que mostrar à criança e sim, como mostrar. Descubra um modo apropriado de abordar o tema e prepare-se para boas surpresas.
            Coloque uma música instrumental para os jovens ouvir atentamente. Depois converse com eles, de forma que eles expressem o que imaginam que o autor queria transmitir. Explore de tal forma que haja múltiplas interpretações possíveis.

            Música é movimento:
            Peça a alguém para tocar ou cantar uma música sem se mover. Chegará à inevitável conclusão de que é impossível. Fazer ou ouvir música é uma boa hora para exercitar o corpo ou os ouvidos e a concentração.

2 - Ampliando o repertório
            Uma canção comunica muito mais do que as idéias contidas em sua letra:
            Sempre pergunto o que leva as pessoas a ouvirem canções em idiomas que não entendem. E, por outro lado, costumo avaliar como boas as canções cujo instrumental acrescenta significado à letra.

       Seleção de repertório:
            Se levarmos em consideração o que vimos até aqui, veremos que cada educador pode, tranqüilamente, selecionar o repertório de acordo com sua turma ou com o perfil de seus alunos, ou ainda, de acordo com temas interdisciplinares que se complementarão ao longo dos encontros. Eu acredito muito na diversidade. Mesmo não gostando de um determinado ritmo musical, de um cantor ou de um grupo, não podemos impedir a criança de formar seu próprio juízo sobre a obra.

       Sobre o mau-gosto:
            Vivemos tempos difíceis. A arte sempre foi o meio de expressão mais sublime do ser humano mas, agora, é tratada por muitos apenas como mais uma mercadoria. Temos de tudo pra todos os gostos. Quanto à música, mais especificamente, eu proponho uma separação simples: Separemos aquilo que é nocivo às crianças - o que ensina coisas impróprias ou que destrói os valores que considerarmos essenciais ao ser humano. Quanto à qualidade da música ou da letra, só o acesso à diversidade pode habilitar uma pessoa a escolher bem.

            A respeito das datas especiais:
            Muitos professores de música ou de artes ficam presos às datas comemorativas. Trabalham o ano inteiro em função do Carnaval, depois, Páscoa, 13 de maio, Dia das mães, Festa junina etc. Acredito que, no ensino das artes, o mais importante é o processo. É importante mostrar os resultados de seu trabalho, mas se se trabalha em função de um objetivo específico, a caminhada fica desgastante e cansativa. Se for possível, mostre aos pais, no evento comemorativo, o que você vem trabalhando com as crianças. Mostre o processo e todos perceberão os resultados.

3 - Conceitos teóricos
            As sensações musicais:
            As artes, em geral, trabalham com regiões de nosso cérebro que desconhecemos, ou conhecemos pouco.  É comum vermos definições que afirmam que a arte comunica o indizível - aquilo que as palavras não conseguem dizer. Pois bem: não tentemos encarcerar uma canção, uma música instrumental ou uma pintura abstrata, assegurando que ela diz isto ou aquilo.  A mesma pessoa, em diferentes momentos da vida, ouvirá uma mesma canção e experimentará sensações diversas. Deixe os artistas brincarem com sua imaginação. Estimule a imaginação dos pequenos.

            Teoria:
            Não é possível exigir que o professor tenha noções teóricas sobre música. Mas, já que estamos aqui, faremos uma pequena exposição de idéias:
            No mundo ocidental, a música surge de um matemático, Pitágoras, e não é à toa que isso acontece. De fato, as noções de matemática são excepcionalmente úteis no mundo da música e vice-versa.
            Música é, antes de tudo SOMA!
            Basta somarmos dois sons, ou dois ruídos, intencionalmente e, teremos um princípio de música.
            É possível afirmar que música é a soma de sons (ou ruídos) organizados.

            Alguns conceitos:
Melodia: A parte cantada das canções ou os solos são exemplos de melodia. Sempre que organizamos os sons (ou ruídos variados) em seqüência, um de cada vez, criamos uma sequência melódica.
Harmonia: O som do violão, suas várias cordas tocadas ao mesmo tempo ou as teclas do piano. Sempre que  organizamos os sons em bloco, vários de cada vez, formamos a harmonia de uma musica. 
Ritmo:  A sequência de batidas de uma escola de samba ou as palmas que acompanham determinadas cantigas formam seu ritmo. Sempre que organizamos os sons ou ruídos em ciclos regulares, repetindo-os.
            Essas palavras fazem parte de nosso cotidiano. São usadas o tempo todo por educadores. Muitas vezes, fora do campo de ação específico da música. Façamos o seguinte exercício:
            Busque em seu cotidiano, um exemplo do uso do conceito de ritmo.
            (...)
            Faça o mesmo com o conceito de harmonia.
            (...)
            Agora, com a idéia de melodia.
            (...)

·                      Proponho aqui, pensarmos na idéia de ritmo de aprendizagem. Todos aprendemos (na teoria) que devemos respeitar o ritmo de aprendizado de nossos alunos. Ritmo pressupõe regularidade. Repetição. Logo, se conhecemos profundamente nossos alunos, compreenderemos seus ciclos regulares de aprendizado, correto? Infelizmente não é tão simples. Fica aqui, um ponto para reflexão. O ser humano não mantém um ritmo regular nem em suas batidas do coração. Varia de acordo com vários fatores externos e internos.
·                     Façamos o mesmo com a  idéia de harmonia. Dizemos que um determinado ambiente está harmonioso quando está tudo calmo, não é mesmo? Um aluno que trabalha em harmonia com os colegas é aquele que respeita o seu semelhante e segue com dedicação as orientações do professor, ok? Harmonia pressupõe diversidade. Vários sons iguais, organizados em bloco não fazem uma estrutura harmônica: Criam, quando muito, uma base rítmica. Ou seja, quem procura harmonia não pode sonhar com uma classe ideal em que todos são alunos dedicados e respeitosos. Harmonia é fruto da soma das diferenças, diferenças convivendo em paz.
·                     E a idéia de melodia? Por qual motivo não é utilizada no cotidiano do educador? Poderíamos dizer que a seqüência de sons que compõem uma melodia pode ser comparada à seqüência de ações e episódios que compõe a vida de um ser humano (ou um aluno). Fica a pergunta: se conseguirmos, de fato, respeitar o ritmo de cada aluno, se esperamos que ele aprenda a conviver em harmonia com os colegas, o que falta para auxiliá-los a construir sua melodia, sua história pessoal?

4 - Parâmetros Curriculares
            O fazer musical
            A música sempre esteve associada às tradições e às culturas de cada época. Atualmente, o desenvolvimento tecnológico aplicado às comunicações vem modificando consideravelmente as referências musicais das sociedades pela possibilidade de uma escuta simultânea de toda produção mundial por meio de discos, fitas, rádio, televisão, computador, jogos eletrônicos, cinema, publicidade, etc.
            Qualquer proposta de ensino que considere essa diversidade precisa abrir espaço para o aluno trazer música para a sala de aula, acolhendo-a, contextualizando-a e oferecendo acesso a obras que possam ser significativas para o seu desenvolvimento pessoal em atividades de apreciação e produção. A diversidade permite ao aluno a construção de hipóteses sobre o lugar de cada obra no patrimônio musical da humanidade, aprimorando sua condição de avaliar a qualidade das próprias produções e as dos outros.

Composições, improvisações e interpretações são os produtos da música.
            O processo de criação de uma composição é conduzido pela intenção do compositor a partir de um projeto musical. Entre os sons da voz, do meio ambiente, de instrumentos conhecidos, de outros materiais sonoros ou obtidos eletronicamente, o compositor pode escolher um deles, considerar seus parâmetros básicos (duração, altura, timbre e intensidade), juntá-lo com outros sons e silêncios construindo elementos de várias outras naturezas e organizar tudo de maneira a constituir uma sintaxe.
Ele pode também compor música pela combinação com outras linguagens, como acontece na canção, na trilha sonora para cinema ou para jogos eletrônicos, no  jingle para publicidade, na música para dança e nas músicas destinadas a rituais ou celebrações. Nesse tipo de produção o compositor considera os limites que a outra linguagem estabelece.
            Uma vez que a música tem expressão por meio dos sons, uma obra que ainda não tenha sido interpretada só existe como música na mente do compositor que a concebeu. O momento da interpretação é aquele em que o projeto ou a partitura se tornam música viva. As interpretações são importantes na aprendizagem, pois tanto o contato direto com elas quanto a sua utilização como modelo são maneiras de o aluno construir conhecimento em música. Além disso, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da linguagem musical ganham significado.
            As improvisações situam-se entre as composições e as interpretações. São momentos de composição coincidindo com momentos de interpretação. Na aprendizagem, as atividades de improvisação devem ocorrer em propostas bem estruturadas para que a liberdade de criação possa ser alcançada pela consciência dos limites.
            Um olhar para toda a produção de música do mundo revela a existência de inúmeros processos e sistemas de composição ou improvisação e todos eles têm sua importância em função das atividades na sala de aula.[2]

            É possível compor com as crianças?
            Justamente por ter um olhar diferente sobre o mundo, a criança tende a criar o tempo todo. E essa é a brincadeira mais mágica! Experimente pedir às crianças, que criem uma música. Pensem num tema gerador e as auxilie. Faça-os brincar de compositores. Peça que imaginem como determinada canção foi criada. Questione se a pessoa criou em cinco minutos, ou se precisou insistir, refazer, recomeçar etc.
            Ajude-os a decidir o que querem falar. Depois, explore as possibilidades: como vamos falar sobre este tema? Peça sugestões: o que você sugere, agora? Uma vez criada uma letra, ou o esboço de uma, peça sugestões de como ela seria cantada. Parte por parte. Tente desestimular que cantem a letra em cima de qualquer melodia famosa: a idéia é que eles percebam que podem criar. Leve um gravador e grave ao término da aula, para que possam dar continuidade caso não consigam fazer na hora.
            Lembre-se: Você não precisa ter conhecimentos musicais para fazer uma música. Assim como não precisa ser pintor para fazer uma pintura. Se o resultado não for uma obra prima, lembre-se que, o mais importante é o fazer. Estariam todos aprendendo muito.

5 - Dificuldades de aprendizagem
            Palavras de Paulo Freire
            O professor afirma: "Sou tão melhor professor, então, quanto mais eficazmente consiga provocar o educando no sentido de que prepare ou refine sua curiosidade, que deve trabalhar com minha ajuda, com vistas a que produza sua inteligência do objeto ou do conteúdo de que falo" (FREIRE, 1996, p.118). Nesse sentido, o professor deve dar suporte ao aluno, com o intuito de levá-lo a superar as dificuldades. Tal afirmação opõe-se a postura da escola que diante das dificuldades dos alunos, atribui a culpa aos mesmos e aos pais. Ainda segundo Freire (1996): "[...] a boniteza da prática docente se compõe do anseio vivo do docente e dos discentes e de seu sonho ético". (p. 25)   Dessa forma, nota-se que no novo contexto educacional, o professor deve estar se capacitando para desenvolver uma prática efetiva, que permita aos alunos o desempenho das suas competências e habilidades.
            Muitas vezes, o professor espera um auxílio em seu dia-a-dia na escola que beira a intervenções médicas. Ao professor não cabe resolver os problemas cognitivos de seus alunos. A ele, cabe ajudar o aluno a superar as barreiras que essas dificuldades impõem em seu caminho.
            Quando dizemos que o aluno tem dificuldades, estamos afirmando que ele é capaz mas que a este aluno, as pedras no caminho parecem maiores, por um motivo qualquer. Saber qual é o motivo pode e deve ajudar na definição de estratégias. O que acontece é que, ao professor “comum”, o diagnóstico, geralmente paralisa.

6 - A importância da música na sala de aula:
            A importância da música e das artes na sala de aula
         Existem inúmeros estudos que relacionam a música a um melhor desempenho dos alunos. A simples presença de um aparelho tocando Mozart em sala de aula, segundo esses especialistas, estimula os neurônios, facilitando o aprendizado. Por outro lado, fala-se muito dos ganhos intelectuais, mas esquecem do principal: o prazer gerado pela música.
            “No compasso das batidas de um tambor ou dos sopros de um trompete, a diretora Marli Simacek, de 48 anos, com freqüência se surpreende ao ver a banda dos alunos da escola em ação. A surpresa maior não vem das notas musicais, e sim da mudança de comportamento à frente dos instrumentos.
            - É da água para o vinho. A gente até usa essa postura (na banda) para tentar mais disciplina dentro da classe - diz a diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Rodrigues Alves, no Tucuruvi, na zona norte da capital.
            Um estudo que se propôs a medir o impacto da música na educação de crianças aponta na mesma direção testemunhada pela diretora. E vai além: ecos de uma iniciação musical podem influenciar também no rendimento escolar.
            - Na periferia, violência e falta de comunicação dificultam o trabalho de professores e diretores. A música dá uma alternativa (de comunicação) a crianças arredias a qualquer ordem. Elas vão bater no tambor como as outras - diz Flavio Comim, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e consultor do Pnud, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.
            Comim fez um diagnóstico recente de núcleos musicais em escolas públicas de oito cidades brasileiras. O trabalho foi encomendado pela (nome da empresa), que formou oficinas de introdução à música nesses locais. Foram avaliadas 8 mil crianças. Metade participava do programa e a outra, não. O Índice de Qualidade da Educação construído por Comim comparou, nos dois grupos, o desenvolvimento cognitivo espacial, que ajuda em questões de lógica matemática; temporal, que auxilia alunos na compreensão de textos; e o relacionamento interpessoal dos alunos.”[3]

7 - Referências bibliográficas

Discografia:
Sai Preguiça (Maria Celeste da Silva) in Palavra Cantada - CANÇÕES DO BRASIL - O BRASIL CANTADO POR SUAS CRIANÇAS, Selo Palavra Cantada, CD/ 2001.
Escravos de Jó (Anônimo).
O Mundo (André Abujamra) in Karnak - KARNAK, Gravadora Tinitus, CD/1994.
A noite do meu bem (Dolores Duran)  in Décio Rocha - TALVEZ NÃO SEJA ASSIM, MCK Ind. Fonográfica, CD/1994.
As Baratas (Darcy da Serrinha) in Daúde - DAÚDE#2, Natasha Records, CD/1997
Saiba (Arnaldo Antunes) in “Saiba”, Arnaldo Antunes, Rosa Celeste/BMG, 2004

Bibliografia (livros):
FREGA, Ana Lucia (1997). Metodologia Comparada de la Educacion Musical. Buenos Aires: CIEM – Collegium Musicum.
SCHAFER, Murray R. (1997). A Afinação do Mundo.
São Paulo: UNESP.
COLWELL, Richard (Ed.) (1992), Handbook of Research on Music Teaching and Learning: A Project of the Music Educators National Conference. N.York: Schirmer Books. (Volumes I e 2)
SCHAFER, Murray R. (1992).
O Ouvido Pensante. São Paulo: UNESP.
PAYNTER, John & ASTON, Peter (1970).
Sound and Silence – Classroom Projects in Creative Music. Cambridge: Cambridge University Press.

Bibliografia (sites):
http://www.desabafodemae.com.br/home.php?acao=eventos&subact=oucamusica
http://tecaoficinademusica.com.br/
http://pedagogia-musical.blogspot.com/2008/01/importncia-do-jogo-na-aprendizagem.html
http://www.portalensinando.com.br/ensinando/principal/conteudo.asp?id=6107&pag=2
http://marianpmatos.googlepages.com/acurapelam%C3%BAsica ***
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722006000200006&lng=pt&nrm=iso



[1]    Extraído do sítio da internet:  http://ns.divinopolis.uemg.br/revista/revista-eletronica3/artigo5-3.htm em 02/02/2008
[2]    http://mecsrv04.mec.gov.br/sef/estrut2/pcn/pcn1a4.asp
[3]                           In: http://www.abemusica.com.br/materias/materia.asp?id=3202

domingo, 17 de outubro de 2010

Pedagogia de projetos

A estratégia de projetos como trabalho pedagógico pressupõe o desejo de aprender do estudante, e o mais consistente, ou eficiente é exatamente aquele que vai além das abordagens tradicionais dos componentes curriculares. O professor Ulisses Araújo é pesquisador da estratégia de projetos.

No Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, versão 3.0, o termo Projeto consta como: SM, desejo, intenção de fazer ou realizar (algo) no futuro; plano. A maioria das pessoas entende o termo plano como algo previamente definido e estático, que se planeja e executa. Na estratégia de projetos, o que se propõe é que o educador não seja um executor do plano, seja um estrategista, pois cabe a ele direcionar o andamento dos trabalhos de acordo com as situações e as reações dos estudantes.

Na Escola Comunitária de Campinas, a pedagogia de projetos é utilizada em todas as turmas. A turma do 5° ano desenvolve um projeto: Raízes culturais e a escravidão no Brasil. Os alunos no 9° ano viajaram para o litoral paulista, no projeto Baixada Santista. 

O professor Ricardo Pátaro, responsável pelos projetos, afirma que a partir da realização do trabalho, foram identificados preconceitos e discriminações que permeiam as relações entre os próprios alunos da classe. O projetos envolvem conteúdos de história, geografia, matemática e língua.

A estratégia de projetos está centrada em dois conceitos da pedagogia: a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, temas já discutidos em textos anteriores. A interdisciplinaridade surgiu como um chamado para se repensar a organização curricular, a partir da constatação que a realidade não é fragmentada. Não chega a pensar na possibilidade de mudança dos objetos de estudo das disciplinas, apenas na soma de esforços para a apreensão de fenômenos complexos. A transversalidade vem como reação à fragmentação disciplinar, pois há temas que atravessam todas as disciplinas. O tema de Valores, por exemplo, perpassa a todas as disciplinas, não cabe a um componente curricular específico.

Ao término do projeto, o professor organizou um debate entre os alunos da turma, que, dividida em dois blocos, defendiam ora os interesses e os argumentos dos portugueses, ora os africanos e seus argumentos.

O trabalho com a estratégia de projetos pode ser representado como um esquema, ou uma rede, onde se deve registrar todo o percurso do trabalho, desde os questionamentos dos alunos até os resultados obtidos, como, por exemplo, as relações entre o tema e as diversas disciplinas envolvidas.

À medida que o projeto vai se desenvolvendo novas questões que não estavam previstas e de elementos surgem e dão margem a novos alinhamentos para as investigações.

A turma do 9° ano desenvolveu o projeto Baixada Santista. Os alunos estudam de maneira conjunta os conteúdos de história, geografia e ciências. O professor Eduardo, educador ambiental, a professora Fátima, professora de história e equipe do projeto, o professor Adílson, de geografia e Eduardo, de ciências completam a equipe. Os alunos estudaram, in loco, a formação de Santos, sua ocupação, as condições naturais e os impactos ambientais.

Em depoimentos, os alunos afirmaram que é muito prazeroso estudar um conceito qualquer e, depois, poder vivenciá-lo, pondo em prática aquilo que foi aprendido em sala de aula.

Segundo o professor Ulisses, um bom projeto abre a perspectiva de desenvolvimento do aluno num âmbito que vai além dos componentes curriculares, pois os habilita a problematizar o mundo e buscar respostas a perguntas que ele têm e, principalmente, instigá-los a buscar possibilidades de intervenção como sujeitos capazes e dispostos a dar sua contribuição para um mundo melhor.

Prática em sala de aula - Construção da rede

Um projeto deve ser realizado percorrendo uma série de etapas. A primeira delas é a Escolha do tema transversal, denominado geralmente de grande tema. Como exemplo, pegamos um projeto realizado com crianças de 10 a 11 anos de idade, no ensino fundamental, cuja grande tema escolhido foi o artigo XXVI da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), que versa sobre o Direito à educação.

A segunda etapa a ser percorrida é a da Aproximação ao tema. No caso do projeto em questão o professor optou por levar imagens e informações a respeito da educação no Brasil. Informações sobre a exclusão e a demanda estudantil no Brasil. Questões sobre jovens em idade escolar que não estão em sala de aula e de pessoas que gostariam de voltar a estudar foram discutidas, o que possibilitou aos alunos fazer a escolha de uma temática mais específica, através de sugestões. Cabe ao professor auxiliar orientando sobre as possibilidades que cada temática específica pode trazer de descobertas e aprendizado.

A turma elencou 5 temas específicos, a saber: Crianças fora da escola no Brasil, Educação para a paz e respeito, Crianças que não têm escola perto de casa, Trabalho infantil e educação no Brasil e Dificuldades nas escolas públicas. Após um rigoroso debate escolheram o Trabalho infantil e a educação no Brasil.

Uma vez feita a escolha do tema específico, chegamos à quarta etapa que é a da elaboração da pergunta que deve ser respondida pelo projeto, o que as crianças gostariam de saber sobre o tema específico a partir de seu próprio interesse. Essas são as questões que as crianças querem investigar durante o projeto:

  • O que o governo e as pessoas podem fazer pra ajudar as pessoas que estão sem escola?
  • O que a polícia faz quando vê uma criança sendo explorada?
  • Por que existe exploração no trabalho de crianças? Por que elas trabalham em serviços pesados se quem tem que trabalhar são os pais?
A próxima etapa envolve o planejamento do professor e a construção da rede, tendo como eixo, o Direito à educação, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o tema específico do trabalho infantil e a educação no Brasil e as questões elencadas na etapa anterior. Cabe agora ao professor organizar ramificações que possibilitem trabalhar os conteúdos relativos aos componentes curriculares.

O professor desse trabalho escolheu questões de matemática, como solução de problemas, porcentagem e frações; de português, como o trabalho com textos, relatos, discurso direto, pontuação e ortografia e, também conteúdos relativos ao estudo de história e ciências. Segue-se então a etapa em que se busca as respostas as perguntas que estão no centro da rede. O professor propõe atividades e pesquisas que os auxiliam nessa busca com ajuda dos conteúdos elencados anteriormente.

É necessário que se faça, em seguida, o registro do percurso das atividades, sua conexão com as disciplinas curriculares, e entre essas e  a temática original do projeto.

Na rede ao lado, temos:
1 Tema específico – O direito à educação;
2 Perguntas – 4ª etapa;
3 Componentes curriculares – Matemática, português, história e ciências;
4 Conteúdos específicos – Pontuação e ortografia, frações, o corpo humano, origem das desigualdades no Brasil etc.
5 Conteúdos desenvolvidos apesar de não previstos pelo planejamento

Ao longo dos trabalhos, surgiu um conteúdo imprevisto, devido à manifestação de uma dúvida surgida de última hora, como frações, questões relativas à história do Brasil ou questões relativas ao desenvolvimento do corpo humano afetados pelo trabalho infantil.

A composição de um texto final, demonstrando todo o percurso e os resultados obtidos pelos alunos, deu margem a um sistemático trabalho em que se pode desenvolver conteúdos como pontuação, ortografia, a reescritura e outros. Além dos trabalhos iniciais de interpretação dos textos informativos, de onde foram retiradas as informações inicias para elaboração do projeto.

Etapas de um projeto, resumo:

1 – Escolha de tema amplo relacionado à formação em valores e à cidadania;
2 – Estudos iniciais para aproximação do tema;
3 – Escolha de temática mais específica para ser estudada;
4 – Elaboração, por parte dos alunos, de perguntas;
5 – Planejamento envolvendo os conteúdos curriculares, estratégias e metodologia;
6 – Investigação coletiva em busca das respostas às perguntas;
7 – Composição de um texto de registro dos resultados obtidos.